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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Louco por cinema


É muito bom ver o nascer e crescer de uma carreira.


Tenho feito isso em relação ao jovem cineasta paraense, Fernando Segtowich.
Fomos colegas no curso de comunicação da Universidade Federal do Pará, nos encontramos em alguns dos estágios e trabalhos da vida e, em todos esses momentos, Fernando sempre falava de sua paixão por cinema.

Apesar das muitas dificuldades - em um Estado que não tem política clara e constante de incentivo à produção cultural - Segtowich tem conseguido fazer curtas e curtas de muita qualidade. Seu mais recente filme, “Matinta”, conquistou dois prêmios no festival de Brasília.
Meio de brincadeira no twitter acertamos uma entrevista que foi concluída por e-mail e que fou publicada hoje no Caderno Você do Diário do Pará e que agora eu trago ao blog como contribuição a todos os que sonham fazer cinema no Pará.

O título desta postagem é da editora do Você, Márcia Carvalho, e se encaixa como uma luva

Muitos sonham em fazer cinema no Pará, poucos conseguem. Entre os poucos que conseguem está você. Qual a estratégia para realizar projetos no Estado?
Acho que é juntar a paixão pelo cinema pela prática de conduzir um projeto que vai desde escrever o roteiro, fazer o projeto para um edital, juntar as pessoas certas, tem que pensar numa estratégia tanto de captação como de lançamento. Claro que tudo vem de uma base de estudo, de técnica de linguagem e também de entrega porque financeiramente eu não ganho dinheiro com os filmes, até perco.

Como foi o começo da carreira?
Estudei cinema na New York Film Academy em Nova Iorque e na volta ao Brasil, eu escrevi o roteiro do “Dias” que ganhou o 1º Prêmio Estímulo da Prefeitura de Belém, mas antes disso, sempre estava envolvido em mostras, críticas de cinema, etc.

Quais as maiores dificuldades para fazer cinema no Estado?
Falta de editais regulares de apoio à produção. A Bahia, por exemplo, vai ter R$ 11 milhões para essa área em 2011. Fora a Lei Semear, só tivemos o prêmio de curta, que foi ótimo, mas é esporádico e não cria uma produção regular.

A carência de recursos obriga a pensar em soluções alternativas (por exemplo na escolha de locações) Como se dá esse processo?
Depende também das parcerias que você monta, os problemas de orçamento te levam a outras soluções
Filmar em locação como no caso do Matinta é sempre bem caro, muito mais do que filmar na cidade, por exemplo.
Nesse filme eu fiz um pensamento inverso queria achar "o lugar", independente de quanto iria custar, aí depois, eu corri atrás das parcerias para viabilizar a locação

Você fica frustrado por não conseguir realizar o filme exatamente como idealizado ou rola de às vezes pensar: “puxa isto não estava previsto, mas ficou melhor assim”?
Em Matinta, fiz tudo que eu queria, fiz tudo que era necessário para o resultado que eu queria. É claro que o roteiro muda, surgem novas idéias durante a preparação e filmagem, mas não deixei de fazer nada do que queria.

Já se pode falar na existência de um cinema paraense?
Rótulos são sempre difíceis, mas acho que temos uma cena com pessoas produzindo coisas interessantes, mas quando se compara com outros estados, acho que ainda falta muito

Do ponto de vista do estilo como você definiria os seus filmes?
Penso que são filmes de personagens, com uma pegada mais contemporânea, talvez. É muito difícil se auto-definir, mas é legal fazer coisas que tenham a sua cara que, no meu caso, são personagens fortes, linguagem técnica elaborada e dinâmica na montagem.

Você fez um filme urbano que poderia falar de qualquer cidade do mundo, “Dias” e agora fez Matinta que fala de uma lenda regional. Como se dão essas escolhas? Há uma preocupação em ser um cineasta mais cosmopolita ou mais associado a temas regionais?
Eu vou aonde meus personagens me levam, seja a Floresta ou a cidade.
Mais uma vez acho que os rótulos aprisionam muito a gente, acho que a visual da floresta ainda está muito na minha cabeça, temos cenários muito fortes aqui na região, encontrá-los também é um desafio pra mim como realizador.

Matinta ganhou dois prêmios em um festival importante que é o de Brasília. Como isso interfere na carreira do filme daqui para frente? E para você, o que muda? Ser premiado pode ajudar em futuras realizações?
Ser premiado em um festival importante é muito bom, porque chama a atenção para o filme e já imprime uma marca legal. Gostaria muito que ele fosse exibido em outros festivais, principalmente no exterior, porque é a chance de fazer contatos e quem sabe buscar parcerias ou co-produções com outros países.

Como foi trabalhar como uma atriz com a carreira cinematográfica da Dira Paes?
Foi um desafio, mas ao mesmo tempo muito bom. A Dira, apesar de ser uma das melhores atrizes do Brasil e uma grande atriz de cinema, é uma pessoa muito acessível e sempre tivemos muitos papos sobre o filme. Mas no set é muito bom ter ela porque além de compor seu personagem ela compartilha sua experiência de 30 longas-metragens com todos os outros atores em cena.


Você já tem algum outro projeto engatilhado?
Meu próximo trabalho será um vídeo sobre manejo florestal sustentável para o Instituto Mamirauá - parceiro de longa data, além disso eu e Adriano Barroso, começamos a desenhar a estrutura dramática de um roteiro de longa-metragem. 2011 será o ano para a divulgação do Matinta, mas quem sabe em 2012 a gente volte para o set. O Matinta sem dúvida é um ensaio para o longa.

Que conselhos daria para os jovens cineastas paraenses?
Em primeiro lugar ,vejam filmes, de todos os lugares, vídeos experimentais, coisas comerciais, e participem de qualquer curso que aparecer aqui. Eu, no começo, estava em qualquer palestra, oficina, curso. Hoje continuo, mas em busca de conhecimento bem específico como o curso que fiz com Robert Mckee, consultor de roteiro, em Santiago do Chile no ano passado.
Com a facilidade do vídeo, acho que tem que tentar experimentar, ver o que dá o certo, o que dá errado.
Se eles tiverem a paixão dentro de si, com certeza vão conseguir realizar seus próprios trabalhos.





Um comentário:

Sônia disse...

Quem ficou curioso em ver o curta-metragem, terá a oportunidade de ir conferir de perto essa história. O filme será exibido na Mostra de Cinema Atual Espanhol, que acontece no Cine Líbero Luxardo, no Centur. O curta será exibido antes dos longas espanhóis. Começa nesta quarta-feira (15) e vai até domingo (19) sempre às 19h30. Entrada gratuita.

Sônia Soares
Assessoria de Comunicação de Matinta